Sábado, Março 22, 2008

Dóris e eu

Ela apareceu num dia de chuva, na rua de casa. A vizinha da frente deixou leite na calçada, e quando eu abri o portão dei de cara com aquela coisinha miúda, branca/preta/caramelo olhando pra mim. Como uma menina que morre de amores por gatos (mesmo que em casa sempre tivemos cachorros aos bandos), virei pra minha mãe e implorei pra deixar a coisinha passar a noite em casa, senão iria morrer (todo drama é válido nessas horas, te garanto).
O que era uma noite virou uma vida. Nas primeiras semanas, ela era ele, e foi batizada de Johnny. Depois da minha avó jogar na minha cara que gato com três cores é sempre fêmea e que eu estava ofendendo a sexualidade da coitada, ela virou Dóris. De lá pra cá passaram-se três anos, e tudo continua na mesma. É impossível passar pela sala sem dar um cafuné naquela bola de pêlos amontoada no sofá. Querendo ou não ela já é membro da família, do tipo que sabe quando alguma coisa tá errada e fica do seu lado quando você está doente. Com todo o respeito aos outros quatro representantes do mundo animal que moram aqui, a Dóris é diferente. Ela deixa qualquer um apaixonado, mesmo que seja uma pessoa estranha que não goste de gatos. Toda a sua preguiça tem um ar especial, que encanta a todos com aquele olhinho preto que parece ter rímel. Pode até ser piegas e coisa de gente besta, mas é verdade. E tudo bem que na maior parte do tempo ela só se interesse por mim quando está com fome. Meu amor vale por nós duas, Dóris.


Gorda, folgada e linda


postado por Monica às 6:33 PM | | Ou aqui

Domingo, Março 09, 2008

Prazer, eu sou intelectual

Meu nome é Gustav Marcelino, tenho 20 e poucos anos e sou foda. Me formei em Direito pela primeira universidade que vi pela frente, mas agora quero me tornar médico. Me acho superior a todos os outros vestibulandos, já que sou formado e tenho plena noção da competição (principalmente por já ter passado por um processo tão seletivo quanto o da faculdade em que estive). Mesmo tendo condições de bancar uma univesidade particular, quero entrar em uma pública, só para garantir meu status.
Minha mãe diz que eu sou bonito, finjo ser simpático e me acho extremamente inteligente. Gosto de economizar dinheiro (sangue turco, sabe?), por isso o único lugar em que levo minha namorada é à sorveteria. Sou bancado pelo meu pai, um professor de Física que adora babar ovo em cima das minhas conquistas depreciando as alheias, mesmo sabendo que os outros ralaram muito mais do que eu para conquistá-las. Leio bastante, mas apenas o que o meu professor de Sociologia indica. Ouço Legião Urbana, Chico Buarque e Pink Floyd, mas não faço a mínima idéia do que eles querem dizer em suas letras. O importante é ser cool, não é mesmo? Para completar a minha imagem de descolado e blasé, não me rendo à mídia. Prefiro morrer a assistir novela, mas paro tudo o que estiver fazendo para assistir aos jogos do Timão.
No momento estou namorando sério, mas antes eu era pegador. Fiquei com umas três meninas até hoje, mas se alguém perguntar eu elevo esse número ao quadrado e pronto. Gosto de comentar sobre qualquer assunto, por isso não sei falar muito bem sobre nada. Hoje tenho certeza que estou no caminho certo, já que sempre terei o papai me dizendo exatamente o que fazer. Aliás, foi ele quem me obrigou a fazer Medicina, pois disse que o dinheiro é o que importa. Por nunca ter tido liberdade de escolha, menosprezo toda pessoa que pensa por si mesma e faz o que gosta, porque pra mim o importante é obedecer ordens e se achar ao máximo. Com isso, tenho certeza que sou a pessoa mais inteligente que esse mundo já viu. Agora, com licença, preciso ir ao banheiro e ver se minha mãe está disponível para me limpar.

*Texto fictício. Qualquer semelhança com a realidade (não) é mera coincidência.


postado por Monica às 5:39 PM | | Ou aqui

Terça-feira, Março 04, 2008

Comunista (mas só na estampa)

Desde que o homem é homem se ouve falar de competição. No tempo das cavernas, nosso tatatatatatatatataravô brigou com o vizinho porque queria a caverna melhor, o lugar mais perto do fogo ou um pedaço maior de bife. A partir do momento em que se resolveu viver em sociedade, a figura do líder já era conhecida. Ele era o mais forte, o mais inteligente, o mais garanhão...Não importa. A questão é que ele se superava em relação aos demais, e por isso era o responsável pelo grupo.
O ser humano já nasce com certos aspectos definidos. Somos todos diferentes, mas carregamos uma essência muito parecida, com características semelhantes uns aos outros. Como exemplo, a afeição, a tristeza, a liberdade e a competitividade. Os dois últimos servem de base para que eu aceite o comunismo como teoria, nada mais. Acreditar na igualdade da sociedade humana é querer reinventar o próprio homem e toda a sua base, sem levar em conta seus instintos naturais. Já que vivem dizendo que somos todos diferentes, como é possível considerar uma ideologia sem liberdade de escolha?
A prova de que o Comunismo morre na prática é óbvia. A Rússia, tão revolucionária em nome do povo em 1917, viveu uma ditadura que cultuava a figura do Estado, o qual era apoiado em um ditador que beirava o facismo. Seu welfare state caiu em ruínas deixando a população à beira da miséria, sem contar que enquanto o povo tinha que se contentar com meia dúzia de produtos, seu mais alto escalão abusava da diversidade encontrada no exterior. E o que falar sobre Cuba? Por acaso é válido se consolidar no poder por quase meio século, cometendo inúmeros crimes contra qualquer um que se colocasse em seu caminho? Tortura, assassinato, seqüestro e censura são bons preços a se pagar por "um país em que a igualdade reina"?
Não concordo e digo mais: qualquer um, MAS QUALQUER UM MESMO, que consegue alguma coisa nessa vida não aceita abrir mão disso pelo próximo. Pode parecer frio e egoísta, mas não minta para si mesmo ao acreditar nisso. Não existe nada de errado em ser recompensado pelo próprio esforço, em ganhar mais por ter investido mais. É claro que o mundo atual usa e abusa disso, com descrepâncias absurdas entre nações ricas e pobres. O Capitalismo tem todo um lado parcial a ser levado em conta, aspectos negativos em que se favorecem minorias às custas de maiorias, e isso é tão errado quanto uma ditadura. Mas não se pode negar que o seu alicerce é o cru do ser humano: os instintos que trazemos desde que nos tornamos a espécie que somos agora.
Se você quiser sair por aí vestindo sua camiseta do Che Guevara, saia. Só não se esqueça que a camiseta que você usa veio da indústria da moda, um dos carros-chefes do sistema que você tanto gosta de criticar para parecer esquerdista. Antes de gritar "viva la revolución!", pense que os primeiros a dar esse grito foram mortos para que você tivesse acesso à Coca-Cola, Macdonald's e Google. E se os ideias marxistas ainda lhe parecem realizáveis, use-os na sua próxima discussão filosófica de mesa de bar, entre os comentários sobre o BBB e as novas tendências de inverno.


postado por Monica às 8:07 PM | | Ou aqui

Monica, 18 anos bem vividos, vestibulanda (das mais neuróticas). Tem uma gata gordinha, amigos de longa data e um casamento planejado desde os cinco anos de idade. Mais? Orkut

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